"ENSINE O ALUNO A OBSERVAR" (Sir William Osler)

25 de março de 2008

Semiologia Médica: Inaugurando o Semioblog

Inauguramos este blog, que chamaremos de SEMIOBLOG, com o objetivo de discutir temas de Semiologia Médica, postar arquivos de aulas de Semiologia, divulgar as atividades do Grupo de Estudos em Semiologia Médica (GESME), criado em 2007, apresentar temas de Semiologia Médica e fomentar o estudo sobre exame clínico e medicina geral para estudantes da área da Saúde.
Sejam bem-vindos!

Como preâmbulo, uma pequena introdução sobre aspectos gerais da Semiologia Médica.

Semiologia médica, ou semiótica, do grego semeion = signo = sinal, é a parte da medicina que estuda os sinais e os sintomas das doenças. Semiologia é uma verdadeira introdução à clínica médica, onde se estudam os sintomas, os sinais, a técnica de abordar e examinar o doente. É o estudo dos sintomas e sinais em sua fisiopatologia, e o estudo das síndromes clínicas gerais.
É uma disciplina fundamental, representa a “introdução” para a clínica, seja ela médica ou cirúrgica. É a preparação dos jovens alunos para o contato com o paciente, abrindo o “ciclo profissional” do curso e transportando o aluno das salas de anatomia e do laboratório de bioquímica, parasitologia e fisiologia, para o convívio com um novo mundo. Nos leitos das enfermarias, o aluno inicia o aprendizado que nunca se acaba, da clínica médica e da clínica cirúrgica.
Em termos gerais, a Semiologia compõe-se de duas partes: 1) Semiotécnica: é a técnica da pesquisa dos sinais, o estudo da técnica da exploração, e 2) Clínica Propedêutica (grego: klinike = leito ou cama; pro = diante; paideuein = ensinar), é o ensinamento clínico primário ou preparatório, destinado a reunir e explicar os sintomas e sinais de modo a chegar-se a um diagnóstico. Assim, a semiologia pode ser chamada de “a arte e a ciência do diagnóstico”. Para se chegar a um diagnóstico, começa-se pela pesquisa de sinais ou sintomas (semiotécnica), depois agrupam-se e interpretam-se (clínica propedêutica).
Assim, a semiologia deverá estar sempre dirigida para uma boa e completa observação clínica. Esta observação clínica, obtida segundo um método e uma técnica, levará ao diagnóstico. A semiologia é parte (e a primeira parte) da clínica. Sem ela nada se poderá fazer ou diagnosticar. É a “arte da diagnose” por excelência. Todavia, não deverão existir “propedeutas” ou “semiólogos”, mas apenas clínicos de boa formação propedêutica.
Emprega-se o termo “sintoma” de forma ampla e generalizada para se caracterizar qualquer manifestação mórbida. A rigor, os sintomas são subjetivos, percebidos apenas pela pessoa doente. Os “sinais”, ao contrário, são observados por outros e, em alguns casos, pelo próprio paciente. A dor e o prurido são sintomas; a icterícia, o sopro cardíaco e o edema são sinais físicos. Alguns fenômenos, como a febre, são, ao mesmo tempo, sinais e sintomas. Sintoma é a manifestação subjetiva, é o que o paciente relata que está sentindo e o que o médico vai analisar através da anamnese, com por exemplo, a dor, é um sintoma.
Sinal é a manifestação física objetiva, que é observada no exame físico do doente, como a cianose e o edema, por exemplo. Um sinal ou um sintoma que ocorra em determinado indivíduo não constitui fenômeno isolado: pode ter múltiplas interrelações, incluindo causas, fenômenos associados e efeitos. Poderão haver interrelações denotando vários tipos de distúrbios na fisiologia, mas há sempre um componente subjetivo, psicológico, às vezes mínimo, mas quase sempre importante.
Sinal patognomônico ( do grego pathos = doença e gnomon = indicador) ou patodiagnóstico é aquele que demonstra, de maneira quase absoluta, a existência de determinada doença, ou seja é o sinal bem característico, quase exclusivo de uma doença. Com efeito, o que é conhecido por achado patognomônico, quer seja um sintoma, quer seja um sinal clínico, indica fortemente o diagnóstico de uma doença, ou de uma síndrome, no decorrer da exploração semiológica do indivíduo. São achados patognomônicos especiais: a facies miastênica, o sinal de Romaña (Doença de Chagas), a podagra (gota), exoftalmia bilateral (doença de Basedow-Graves), sinal de Blumberg (apendicite), sinal do vespertílio (lupus eritematoso), sinal de Nikolsky (pênfigo), sinal de Auspitz (psoríase), sinal de Filatov (sarampo), estalido de abertura da mitral (estenose mitral), sinal de Corrigan* (insuficiência mitral), entre outros. (corrigindo erro: sinal de Corrigan indica insuficiência aórtica, e não insuficiência mitral)
Síndrome (do grego sin = com; dromos = curso), é um complexo sintomático, um quadro sintomático, é a associação de sinais e sintomas evoluindo em conjunto, provocada por vários mecanismos e dependendo de causas diversas. Exemplos: síndrome de hipertensão portal, cuja etiologia pode ser cirrose hepática, esquistossomose mansônica, fibrose hepática congênita; síndrome disabsortiva, que pode ser por pancreatite crônica, doença celíaca; síndrome edematosa, cuja causa pode ser insuficiência cardíaca congestiva, glomerulonefrite, disproteinemia, etc. Já o termo "doença", também um conjunto de sinais e sintomas, com a mesma evolução, porém, procedentes sempre de uma mesma causa específica.
O domínio da semiologia é muito complexo, e de aquisição demorada e trabalhosa, implicando o domínio de vários componentes: conhecimento da fisiologia normal e dos múltiplos mecanismos de doença, mestria dos métodos e técnicas de colheita de dados, sejam eles a história clínica, a observação psicológica ou o exame físico, e a capacidade de interpretação dos dados recolhidos.
Os objetivos pedagógicos da Semiologia Médica dividem-se em:
a) capacitação técnica: que se refere, essencialmente, à semiotécnica, ou seja, à capacidade de realizar corretamente a anamnese e as manobras do exame físico, aplicáveis na investigação dos principais sinais e sintomas apresentados pelo paciente;
b) capacidade de elaborar raciocínio diagnóstico: o que será aperfeiçoado ao longo do curso pelos conhecimentos assimilados no decorrer da Disciplina,sempre fundamentado nos conhecimentos das disciplinas básicas;
c) elaboração de diagnósticos sindrômicos e, na medida do possível etiológicos, a partir dos dados coletados à beira do leito;
d) desenvolvimento de uma boa relação médico paciente através do aperfeiçoamento de posturas e atitudes adequadas (a relação do estudante com o paciente e com os colegas, com os docentes e demais membros da equipe multidisciplinar).
e) orientação do estudante, no início de seus estudos clínicos, a desenvolver métodos sistemáticos e analíticos de exame do paciente e de anotar com clareza os dados resultantes;
f) Auxílio ao estudante na interpretação dos sinais e sintomas clínicos e correlacioná-los com seus recentes conhecimentos de Anatomia, Fisiologia e Patologia.

Lembre-se que a anamnese completa e um exame físico serão o seu principal instrumento de trabalho médico.