10 de julho de 2010

Para que Serve o Estudo de História da Medicina?

"Nada sabe de sua arte aquele que lhe desconhece a história" (Goethe)

Por Rilva Lopes de Sousa Muñoz

Surge, com certa frequência, uma pergunta pragmática entre os estudantes de graduação em Medicina: “Que utilidade tem o estudo da História da Medicina?” Será mesmo uma "perda de tempo" cursar esta disciplina? Esta é a questão norteadora do presente texto.
A História da Medicina desempenha um papel importante na educação dos médicos, embora ainda seja uma disciplina negligenciada nos currículos de graduação no Brasil. Países mais antigos, como a Inglaterra, França e Alemanha, ensinam a História da Medicina metódica e sistematicamente, como currículo e como vivência (LIMA, 2003). 
Por outro lado, o próprio estudante de Medicina costuma não valorizar a disciplina de História da Medicina, cursando apenas por se tratar de obrigatoriedade em alguns currículos. Esta atitude por parte dos estudantes reflete a visão da maioria dos médicos atuais.  Estes estão voltados para outros interesses, como a supervalorização atual do uso da tecnologia na Medicina, pela orientação que recebeu quando estudante para um biologismo exagerado, uma postura voltada apenas para o paradigma biomédico ainda hegemônico hoje, isolando a contribuição das ciências humanas na sua formação (ABRIL, 2003). Por mais incoerente que pareça, não importa o que aconteceu na Medicina antes do século XX para grande parte dos médicos contemporâneos e estudantes. Na história da ciência, assim como em qualquer outra forma de expressão da inteligência humana, o passado parece ficar isolado no tempo, embora persista atuando como estímulo e exemplo para as gerações futuras (LIMA, 2003). 
Nesse sentido Pessoti (1996: 445) mostra que
para o jovem médico, o que a Filosofia ou as “ciências do homem” têm a dizer, parecerá pouco mais do que mera especulação, ou até metafísica, depois da informação a crítica do cursinho, depois da objetividade organicista, talvez inevitável, da formação médica. Não é raro que ele se encontre como peixe fora d’água, ao ler algum texto de Sociologia ou de Psicologia ou de Epistemologia ou de História da Ciência. Essa estranheza tem, pelo menos, duas explicações. A primeira é óbvia: ele não foi preparado para aceitar ou entender esse tipo de textos.
De outra parte, percebe-se que a velocidade em que ocorrem, difundem-se e, principalmente, mudam, os conhecimentos na área, faz com que muitos professores e alunos tenham pouco tempo e interesse para o estudo da História da Medicina (ABRIL, 2003). Assim, muitas escolas médicas do país não têm no seu currículo um lugar de reflexão e pesquisa sobre a origem e desenvolvimento do conhecimento médico ao longo do tempo.
Em geral, procuram-se os benefícios tangíveis derivados do conhecimento da história no contexto do ensino da Medicina. Na atualidade, as pessoas parecem ser demasiado pragmáticas e sempre pensam de forma a buscar apenas fins utilitaristas nos seus estudos. Este é um olhar reducionista, e como todo reducionismo, é limitado. Exceto por parte de professores de história, percebe-se uma certa ignorância da História da Medicina pela maioria dos outros docentes em áreas básicas e clínicas da saúde. Em geral, os próprios professores de Medicina consideram desnecessário o ensino da História da sua profissão, como se o passado fosse irrelevante e devesse ser descartado, e como se o que importasse fosse apenas o que está acontecendo no momento. Esta é uma visão, mais que reducionista, equivocada, pois não se pode considerar que a Medicina tenha atingido seu estado atual de desenvolvimento sem uma série de descobertas e esforços individuais que, juntos, um a um, formaram a base do conhecimento que se dispõe hoje. A falta de professores com essa qualificação também é um dos problemas para as disciplinas da área e um dos empecilhos para a inserção de temas humanísticos em outras disciplinas curriculares (RIOS, 2010).
Nesse sentido, Buzzi (2014) afirma que esta subvalorização do estudo da História da Medicina deve-se também ao fato de que os médicos estão geralmente premidos a abandonar o passado como se este fosse inadequado, impreciso e inválido. Ainda conforme o referido autor, pode-se repetir que, ao contrário do que indica o senso comum, "todos nós temos necessidade de encontrar heróis e fontes de inspiração nos quais podemos apoiar nossa luta contra a doença e o sofrimento". Homens e mulheres na profissão médica podem herdar de seus predecessores ferramentas, crenças e atitudes, e a partir destas, conseguir fazer magníficas contribuições pessoais, se não para o progresso da Medicina, mas para o benefício da comunidade à qual dedicam seu trabalho na arte e ciência de curar e aliviar o sofrimento humano.
A História da Medicina é uma parte da História dedicada ao estudo dos conhecimentos e práticas médicas ao longo dos tempos. Trata-se de um registro da sequência de vitórias sobre a ignorância e a superstição, mas também do relato dos equívocos e das grandes confusões que ocorreram na evolução histórica da Medicina. 
É necessário lembrar, contudo, que a palavra “história” deriva do grego ιστορειν (historein), que significa "perguntar".  Essa etimologia indica a natureza crítico-reflexiva da História da Medicina. Daí, a possibilidade de questionar e de cultivar a curiosidade na busca de explicações, na agudeza em compreender os problemas vivenciados pelos antigos povos até a era recente de desenvolvimento magnífico da ciência médica. Isso dá a dimensão do quão magnânimo é conhecer a História para que se possa entender a própria existência e importância dentro de uma sociedade repleta de possibilidades e de contradições. Estas não são importantes por si mesmas, mas apenas na medida em que se aprende algo a partir delas. Esse aspecto está contido na ideia de que hoje a educação médica é caracterizada pelo desenvolvimento de valores e atitudes. Tais competências não podem ser adquiridas sem uma formação humanística, incluindo o conhecimento da evolução da Medicina.
Desde suas origens, o ser humano tenta explicar a realidade e os acontecimentos transcendentais da vida, como a morte e a doença. Estas influenciaram intensamente a evolução da humanidade. Não se pode compreender o presente e olhar de maneira inteligente para o futuro se não se conhece como os esforços humanos descobriram as verdades – e as mentiras – que foram legadas para a época atual. O avanço das civilizações apenas pode ocorrer porque existe assimilação da história, dos ideais, dos exemplos e das realizações dos antepassados (LIMA, 2003).
Acredita-se que o ensino de História da Medicina confere "refinamento" aos médicos. Não se trata de proselitismo. O estudo da História da Medicina aprimora a cultura geral do estudante. A História da Medicina é parte da História Geral da Humanidade, e o modo como a Medicina é exercida reflete o grau de desenvolvimento científico, tecnológico e cultural de um povo. A História da Medicina, em sua tríade conceitual – histórica, filosófica e ética – constitui disciplina fundamental à cultura e completa formação da mentalidade médica. Ela é indispensável para aquele que não se contenta em ser mero profissional de uma técnica e que aspira à dupla perfeição: do homem culto e do técnico intelectualmente ambicioso (GUSMÃO, 2006).
Lichtenthaler (1978) afirma que 
"os conhecimentos profissionais por si fazem de vós simples técnicos e funcionários de saúde. [...] é só graças à consciência histórica que amadurecem de modo a tornarem-se personagens médicas" 
Esta frase é o equivalente a outra bem conhecida, cunhada por Abel Salazar, de que "médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe" (CUNHA, 1987). 
A História da Medicina é paralela e se identifica com a História da Humanidade. Do empirismo dos povos primitivos até as últimas descobertas do Prêmio Nobel, a evolução da Medicina reproduz a evolução do pensamento humano. Portanto, percorrer este longo caminho é como viver "uma inesperada e fascinante aventura” (PENSO, 1990). 
O ensino da História da Medicina mudou ao longo do tempo. No final do século XIX, ensinava-se História da Medicina aos alunos de graduação para fornecer um sentido de continuidade com as tradições da profissão em tempos de mudanças tão rápidas. Na segunda metade do século XIX, a História da Medicina tornou-se uma disciplina crítica, com a colaboração interdisciplinar de historiadores, filologistas, filósofos e médicos (GUSMÃO, 2006).
A História da Medicina não se interessa apenas pela ação dos médicos, mas também pelas ideias que os guiaram. Ela estuda os sistemas de medicina mágico, religioso, filosófico, teológico e científico. As teorias médicas representam um aspecto da civilização de determinado período, e para compreende-las é necessário conhecer as outras manifestações desta civilização, como filosofia, literatura e arte (ibid).
No século XIX, a união da História e da Medicina veio constituir uma nova disciplina, a História da Medicina, como já se mencionou, como parte da História Geral. Os clássicos da Medicina passaram a ser lidos não como fonte de informação para a prática médica, mas como documentos históricos para conhecer como os médicos antigos cuidavam das pessoas e quais eram as ideias que guiavam suas ações (GUSMÃO, 2006). No início do século XX, o ensino de História da Medicina passou a ser visto cada vez mais como uma dimensão importante do desenvolvimento profissional, intelectual e humanista de estudantes de medicina. Ainda de acordo com Gusmão (2006), a História da Medicina, sendo uma disciplina histórica, usa os métodos gerais da pesquisa histórica comum a outras disciplinas históricas, mas é uma história especial, tendo também seus métodos próprios e seus problemas. É uma disciplina que estuda a saúde e a doença através dos tempos, as condições para a saúde e a doença e a história das atividades humanas que têm por objetivo promover a saúde, prevenir as doenças e curar o doente.
Além disso, a História da Medicina é um meio através do qual mudanças recentes e radicais na área da saúde podem ser vistas com a necessária perspectiva. Para todos os alunos, estudar o papel da ciência e da medicina na cultura e na sociedade contribui para a capacidade de pensar criticamente sobre como a ciência deve e não deve funcionar.
O conhecimento de que a Medicina e as Ciências Médicas são fundamentalmente sociais é uma lição importante aprendida através da História. O conhecimento médico é objeto de mudança e é adquirido em contextos específicos, nos diferentes períodos históricos, e acabam por se refletir também na arte de curar. Não se pode separar o ofício de curar de suas implicações antropológicas e sociais.
As doutrinas médicas representam a ideologia geral da época, suas concepções filosóficas e religiosas, produzindo-se explicações das doenças e dos processos de cura e, consequentemente, dos métodos de tratamento (GUSMÃO, 2006). 
Há um outro e muito mais fundamental benefício que pode resultar do ensino da História da Medicina na graduação. Esta é uma época em que os educadores médicos estão preocupados com o aumento da necessidade de preparar estudantes de medicina para a sua profissão com uma maior ênfase na sua formação humanística. A prática da medicina torna-se mais complexa a cada dia e também mais interdisciplinar, o que torna necessária uma coesa compreensão da História, Antropologia e Filosofia, e de suas interfaces. Uma das premissas de Sir William Osler, considerado o pai da Medicina contemporânea, é de que "os estudos humanísticos são os hormônios que catalisam o pensamento e humanizam a prática médica". 
São necessárias disciplinas e temas humanísticos transversais que se apresentem em diferentes momentos e disciplinas curriculares durante toda a formação do aluno de Medicina (RIOS, 2010).
A disciplina de História da Medicina auxilia no entendimento de como, através de um passo de cada vez, mediante saltos de progresso e de muitos obstáculos, o conhecimento médico da humanidade avançou de uma época em que nem o fluxo de sangue dentro do corpo era conhecido, e as células não eram sequer um conceito, até a atualidade, quando transplantes de órgãos são realizados de forma sistemática.
Imagine-se que o surgimento de um instrumento simples que permitiu ao médico ouvir os batimentos cardíacos foi um avanço profundo. Como a ciência médica foi capaz de fazer esta viagem extraordinária? Quais os principais descobrimentos tornaram possível as condições atuais de terapêutica médica? Quem foram as pessoas responsáveis por essas fascinantes descobertas?
Na década de 1990, a História da Medicina foi ensinada em uma variedade de configurações. Em algumas escolas, a história foi integrada ao ensino das humanidades médicas. Em outras, passou a ser ministrada pelos próprios professores de Medicina (LEDERER et al., 1995).
É importante que o ensino de História da Medicina seja ministrado por médicos porque estes podem apreciar toda a evolução histórica com base em sua vivência. Supostamente o médico deveria saber melhor que o ensino desta disciplina ajuda a socializar os estudantes deste curso para a profissão. As pessoas que compartilham a mesma profissão geralmente têm formas de pensar e de se comportar, que são peculiares. Ao entrar em qualquer profissão, o recém-formado é identificado com um grupo e incorpora os paradigmas seguidos naquela profissão. Quando uma pessoa se envolve em um novo processo sem conhecer a sua história, apenas um conjunto de conhecimentos vazio é adquirido, sem a compreensão da evolução e a tradição dos processos que os originaram. 
Em uma sociedade pluralista, onde as pessoas são tão diferentes, o médico deve compreender o contexto histórico em que muitas questões cruciais de sua profissão foram resolvidas, em relação a determinado tema semelhante, e obter uma compreensão do passado para avaliar as opções de hoje. Padrões contemporâneos e recursos tecnológicos não podem ser vistos como melhores, mas como diferentes pois foram desenvolvidas em determinado contexto. A má interpretação de tudo novo é necessariamente verdadeiro, ou melhor do que o antigo, vem dessa ideia (ABRIL, 2003).
É senso comum que um dos melhores métodos de expor um assunto é o método histórico. Abordar uma questão a partir do momento em que ela nasce, compreendendo as circunstâncias que a originaram, seguir sua evolução, conhecer os fatos e as razões que apoiam ou contradizem as diversas teorias que sobre ela foram emitidas... A História da Medicina contribui para a desmistificação de dogmas. Para tanto, lembra ainda Pessoti (1996: 441) que
Tanto a Medicina Hipocrática como a Filosofia Humanística de Sócrates, por se fundarem na experiência pessoal e no apego à racionalidade, esvaziavam os poderes do mito e do dogma, enfeixados pela classe sacerdotal.
Esta é uma ótima maneira de compreender a questão, pois mostra claramente que a reconstituição do passado é fundamental para a formação humanística do médico, que precisa aprender a desmistificar conceitos errôneos do passado.
Para finalizar a discussão em torno da pergunta "para que serve o estudo da História da Medicina?", recorre-se novamente a Pessoti (1996: 448), que sublinha a relevância desta disciplina na formação médica:
O produto final de disciplinas como História da Medicina ou Filosofia da Ciência (...) deve ser a descoberta, pelo aluno, dos valores e sentidos que a humanidade tem atribuído ao homem, à Medicina ou ao conhecimento científico. No confronto de seus valores pessoais com esses que a História e a Filosofia apontam, certamente, o aluno-homem crescerá e o médico humanista começará a se desenvolver.
Portanto História da Medicina é também Medicina, é uma forma de abordagem para compreender melhor a própria arte e ciência de curar. Afirmar a importância da História da Medicina é afirmar a importância da própria carreira médica. 
Concluindo, desafio o estudante que inicia o módulo de História da Medicina agora a sintetizar o presente texto, de forma que não pareça prolixo.

Referências
ABRIL, R. B. La historia de la medicina como estrategia para la formación integral. Acta Médica Colombiana. 1 (1): 2003
BUZZI, A. L. ¿Por qué es importante estudiar la historia de la medicina? Rev Argent Radiol. 78(2):118-119, 2010.
CUNHA, N. Ciência, conhecimento e sociedade em Abel Salazar. Revista Portuguesa de Filosofia, 43 (3/4): 273-305, 1987.
GUSMÃO, S. História da Medicina: Importância e Evolução. 2006. Disponível em: http://www.sbhm.org.br./ Acesso em: 10 jul. 2010. 
LEDERER, S. E; MORE, E. S.; HOWELL, J. D. Medical history in the undergraduate medical curriculum. Academic Medicine. 70 (9), 1995.
LICHTENTHALER, C. Histoire de la médecine. Paris: Fayard, 1978.
LIMA, D. R. História da Medicina: Um Guia Prático e Bem-Humorado. Rio de Janeiro: Medsi, 2003.
PENSO, G. Parassiti, microbi e contagi nella storia dell'umanità. Roma: Ciba-Geigy, 1990.
PESSOTTI, I. A formação humanística do medico. Medicina Ribeirão Preto 29: 440-448, 1996.
RIOS, I. C. Humanidades e medicina: razão e sensibilidade na formação médica. Ciênc. saúde coletiva. 15 (suppl.1): 1725-1732, 2010. 

Ilustração desta postagem: Andreas Vesalius realizando uma de suas dissecações (meados de 1.500).