2 de setembro de 2013

"Holocausto Brasileiro", Genocídio em um Hospital Psiquiátrico

Ano de lançamento: 2013

Resenha de Rita de Cássia Souza

Livro-documentário da jornalista Daniela Arbex sobre o Hospital Colônia de Barbacena/MG, manicômio hospitalar que funcionou por décadas. Este manicômio foi um depósito onde seres humanos eram jogados para esperar a morte, onde eram mal alimentados, viviam em condições sub-humanas, desde as mais simples condições de vida até os tratamentos, experimentais ou aplicados por profissionais sem qualificação, e onde havia venda sistemática de cadáveres (que eram muitos e diários) e venda de ossadas, além de exploração do trabalho escravo. Por várias ocasiões o hospital foi denunciado com alarde na imprensa, reivindicando-se a tomada de atitudes  por parte do poder público, com as correspondentes promessas, mas era o completo esquecimento o destino dos que habitavam o Colônia, que continuava sua tenebrosa operação. Pelo exposto no livro, com vasta documentação fotográfica, percebemos que esse manicômio não pode ser comparado aos campos de concentração nazista na Segunda Guerra Mundial, pois foi aterradoramente pior, não em quantidade de mortos - no caso do Colônia, dezenas de milhares de vítimas -, mas na proporcionalidade de tempo e tratando-se apenas de um "campo", o estudado pela autora.
Quase ao final, contudo, o livro sai completamente de sua lógica e propósito ao relatar em detalhes a vida de um jornalista de "O Cruzeiro", que foi uma testemunha das atrocidades do local, autor de fotografias que registraram o Colônia em pleno funcionamento (presentes no exemplar), apenas mais uma testemunha que teve papel como denunciante, porém deixou cair no silêncio o grito, como um eco que por si apaga o próprio som. Esses se tornaram cúmplices. O extenso detalhamento da vida do jornalista corta o raciocínio e os retratos dos sobreviventes e dos mortos presentes nas memórias. Sem propósito.
Os registros nos trazem a angústia das vítimas e a revolta pelo silêncio dos algozes, todos que tinham conhecimento de qualquer forma e não denunciaram, até surgir um médico que por décadas insistiu na desumanização do tratamento e, mesmo com ameaças de retaliações, inclusive envolvendo o Conselho Regional de Medicina, conseguiu deixar algumas histórias vivas do que viria a ser o "holocausto brasileiro".

Passagens:
"Vinte e oito presidentes do Estado de Minas Gerais, entre interventores federais e governadores, revezaram-se no poder desde a criação do Colônia, entre 1903 e 1980. Outros dez diretores comandaram a instituição nesse período, alguns por mais de vinte anos, como o médico Joaquim Dutra, o primeiro dirigente. Em 1961, o presidente Jânio Quadros colocou o aparato governamental a serviço da instituição para reverter "o calamitoso nível de assistência dada aos enfermos". Deputados mineiros criaram comissões para discutir a situação da unidade dez anos depois. Nenhum deles foi capaz de fazer os abusos cessarem. Dentro do hospital, apesar de ninguém ter apertado o gatilho, todos carregam mortes nas costas"
"A intervenção cirúrgica no cérebro para seccionar as vias que ligam os lobos frontais ao tálamo era recorrente no Colônia. Embora tenha sido considerada uma técnica bárbara de psicocirurgia, a lobotomia ainda é realizada no país."
"Sem portão [o Cemitério da Paz], o que se vê hoje é uma área de 8 mil metros quadrados tomada por mato alto e detritos. (...) Esse é o local onde são mantidos os 60 mil mortos do Colônia. Enterrados em covas rasas, as vítimas de tratamento cruel não alcançaram respeito nem na morte. Seus túmulos vêm sendo depredados ao longo do tempo, e nem mesmo os ossos revelados conseguiram reverter o descaso imposto aos excluídos sociais."
"A partir de 1960, a disponibilidade de cadáveres acabou alimentando uma macabra indústria de venda de corpos"
"- Por que esse menino está marrado nesse solão? 
- Se soltar, ele arranca os olhos das outras crianças. Tem mania - respondeu a mulher, com naturalidade. - E quantos olhos já arrancou? - Nenhum - disse a religiosa."
"A violência ocorrida contra a menina e, mais tarde, com outros tantos internados em Oliveira não foi responsável pela interdição do hospital de lá, sim uma telha que caiu sobre a cabeça do diretor. Quando o fechamento foi anunciado, em 1976, trinta e três crianças de Oliveira foram enviadas para o Colônia, em Barbacena. Esperavam resgatar, no novo endereço, a infância roubada. Logo perceberam que os tempos eram novos, mas o tratamento, não,"
"Quando o homem chegou ao hospital, sua expressão era endurecida. A de Roberto, ao contrário, se iluminou. Com nove anos, ele correu para abraçar o pai, que não via há quase um ano. A emoção do encontro fez o menino ter uma pequena incontinência urinária. Quando chegou perto do pai, algumas gotas de xixi molharam a calça que estava vestindo, a melhor roupa que as funcionárias encontraram. O goiano até tentou esconder o desconforto diante daquela criança desajeitada, mas não conseguiu. Constrangido com o aspecto do filho, o pai disse que sairia para buscar almoço. Deixou a comida lá e nunca mais apareceu. A indiferença paterna atingiu em cheio o menino  gordinho e sensível. Deixado para morrer no Colônia, ele foi definhando. Não sucumbiu de fome, nem de frio, como os outros, mas de tristeza."
"(...) foi sentencionado à pena de morte: a internação no Colônia."